Mercado de elétricos usados no Brasil: a preocupação com reparos após o fim da garantia
O segmento de veículos elétricos usados no Brasil está em expansão, levantando novas dúvidas sobre os custos de manutenção, especialmente após o término da garantia. Embora ainda incipiente, com poucos modelos com mais de oito anos de uso, o mercado já reflete preocupações sobre a longevidade e o preço de reparo de componentes eletrônicos de potência, como inversores e conversores.
A apreensão reside no potencial impacto financeiro que a falha desses sistemas pode representar em um país onde carros elétricos usados ainda possuem um valor considerável. No entanto, dados de mercados mais maduros, como o alemão, indicam um cenário menos alarmante do que se teme. O Allgemainer Deutscher Automobil-Club (ADAC) da Alemanha, que compila dados de milhões de assistências rodoviárias anuais, aponta que carros elétricos registram, em média, menos da metade de panes em comparação com veículos a combustão.
As estatísticas do ADAC revelam que, para cada mil veículos elétricos, ocorrem cerca de 4,2 panes ao ano, ante 10,4 por mil veículos a combustão no mesmo período de idade. Essa diferença se mantém mesmo em veículos com dois a quatro anos de uso, faixa predominante no mercado brasileiro, onde elétricos registraram 3,8 panes por mil unidades, contra 9,4 de modelos a combustão.
É importante notar que esses números não isentam os carros elétricos de apresentarem problemas, mas sugerem uma necessidade menor de assistência em comparação com seus equivalentes a combustão. A análise detalhada das causas das panes no levantamento do ADAC traz ainda mais esclarecimento:
- Cerca de 50% das ocorrências em elétricos estão relacionadas à bateria de 12V, um componente comum também em carros a combustão.
- Componentes do motor, sistemas de gerenciamento e alta tensão representam aproximadamente 18% das falhas.
- Pneus, sistemas elétricos auxiliares e outros itens completam o restante.
Dentro dos 18% de falhas ligadas ao trem de força de alta voltagem (motor, gerenciamento e sistema de alta tensão), que incluem inversores e eletrônica de potência, a taxa anual cai para cerca de 0,8 ocorrência por mil veículos. Isso significa menos de uma pane desse tipo a cada mil elétricos em circulação, segundo os dados de assistência rodoviária europeus.
Esses números não descartam a possibilidade de falhas específicas e caras, mas demonstram que, estatisticamente, o trem de força de alta voltagem não é a principal causa de problemas em mercados com frota elétrica mais antiga e fora da garantia.
Um fator que contribui para a apreensão no Brasil são os custos de reparo de componentes de um trem de força elétrico, que podem ser significativos. Na Europa, peças como motor elétrico podem custar entre €1.700 e €6.000 (aproximadamente R$ 10.591 a R$ 37.380), e inversores de alta potência podem variar de €200 a €8.000+ (cerca de R$ 1.246 a R$ 49.840+), dependendo se são peças novas, usadas ou recondicionadas, sem incluir custos de mão de obra e impostos.
No contexto brasileiro, onde carros elétricos usados custam entre R$ 70 mil e R$ 180 mil, uma falha em um componente eletrônico de dezenas de milhares de reais representa uma fatia considerável do valor do veículo, algo menos impactante para o consumidor europeu.
Embora o risco de uma falha cara exista, a principal diferença em mercados mais desenvolvidos é a existência de um ecossistema robusto de peças usadas, módulos recondicionados e oficinas especializadas, que ajudam a mitigar os custos. No Brasil, esse mercado paralelo de peças e reparos ainda está em desenvolvimento.
A tendência de queda nas panes, tanto em elétricos quanto em carros a combustão, observada nos dados do ADAC (de 8,5 por mil em 2020 para 1,7 por mil em 2022 para elétricos), sugere um amadurecimento das plataformas e a melhoria na confiabilidade dos componentes.
Assim, a recomendação para quem busca um elétrico usado no Brasil é ir além da quilometragem. A consulta a um scanner OBD2 e a verificação do histórico de revisões na concessionária são cruciais para avaliar o estado real do veículo e minimizar surpresas desagradáveis após a compra, especialmente considerando as limitações atuais do mercado de reposição independente.
















